Escolher a escova, colocar a pasta e pedir que a criança escove os dentes parece simples. Mas alguns hábitos transmitidos entre gerações já foram revistos pela odontologia: evitar o flúor, deixar os pequenos escovarem sozinhos ou acreditar que mais pasta e mais força significam uma limpeza melhor.
É para desfazer confusões assim que conversamos com a odontopediatra Ana Paula Figueiredo Carlos, especialista na área desde 2003 e profissional da Unimed Odonto desde 2009. No consultório, ela vê essas crenças aparecem misturadas a dúvidas sobre qual escova usar, quanto creme dental colocar, quando procurar o dentista e até como lidar com o consumo de açúcar.
A seguir, você confere seis erros e mitos sobre higiene bucal infantil que ainda confundem pais e responsáveis e o que fazer no lugar deles para cuidar da saúde bucal das crianças.
1. “Criança pequena deve usar pasta sem flúor”
Essa já foi a recomendação. “Hoje em dia, sempre com flúor”, resume Ana Paula, que diz que a orientação de adiar o ingrediente até certa idade ficou para trás.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda creme dental com flúor duas vezes ao dia para todas as crianças. A Associação Americana de Odontologia (ADA) orienta começar assim que os primeiros dentes aparecem.
A dentista explica o motivo. Quando a criança come açúcar, o pH da boca cai e o meio fica ácido, o que favorece a perda de minerais do dente. O flúor da pasta ajuda a reverter esse processo, favorecendo a remineralização e prevenindo a cárie.
Ana Paula reconhece que existem correntes contrárias ao flúor, que citam, por exemplo, problemas de tireoide. Mas ela afirma que os pesquisadores que ela acompanha chegam cada vez mais à conclusão de que ele é fundamental na prevenção da cárie.
Na embalagem, vale conferir a concentração de flúor: a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda no mínimo 1.100 ppm, e as referências internacionais falam em pelo menos 1.000 ppm.
2. “Se a criança engole a pasta, é melhor evitar o flúor”
Quando a criança ainda engole parte da pasta, a solução é controlar a quantidade, e não retirar o flúor. A preocupação é legítima, e Ana Paula explica por quê: “Tem que saber usar a quantidade correta, pouquinha”.
Ela lembra que muitas famílias não conhecem a fluorose, que é o excesso de flúor durante a formação dos dentes. Segundo a dentista, ela aparece como manchas nos dentes permanentes.
As orientações de órgãos como o Oral Health For Young Children (HRSA), do governo dos Estados Unidos, segue a mesma linha:
- o adulto coloca uma pequena quantidade de pasta na escova,
- acompanha a escovação
- quando a criança aprende, pede que ela cuspa o excesso sem enxaguar a boca.
- o tubo deve ficar fora do alcance dos pequenos.
3. “Aprendeu os movimentos, já pode escovar sozinha”

Segurar a escova e imitar os gestos é uma etapa do aprendizado, mas não significa que a limpeza está completa. “Cada criança é de um jeito”, diz Ana Paula. Para ela, uma criança de 3 anos não escova bem. Por isso, crianças com menos de 6 anos não devem escovar os dentes sozinha. A partir dos 6 ou 7 anos, muitas conseguem, mas há quem ainda precise de ajuda aos 12.
As referências internacionais variam um pouco na idade, mas concordam na supervisão:
* A ADA diz que, à medida que ganham coordenação, as crianças podem escovar os próprios dentes, mas sob supervisão de um adulto.
* O HRSA recomenda supervisão para crianças menores de 7 anos ou que ainda não escovem bem.
* A Academia Americana de Pediatria, em material no Healthy Children Org, diz que as crianças costumam precisar de ajuda até os 8 anos. A autonomia deve considerar a qualidade da limpeza, e não só a idade.
Na hora de dar autonomia, o que conta é a qualidade da limpeza, e não só a idade. Vale olhar os dentes depois da escovação: se ainda há restos de comida ou placa perto da gengiva, a criança ainda precisa de ajuda.
4. “Escovar com força limpa melhor”
A pressão não substitui a técnica. A ADA recomenda escova de cerdas macias e pressão suave, o que pode reduzir o risco de machucar a gengiva.
Ana Paula também defende a escova macia, inclusive para adultos, e prefere as de cabeça pequena, reta e com cerdas do mesmo tamanho, sem borrachas entre elas. Ela diz que é possível ter uma boa higiene com uma escova de preço mais baixo.
O que faz diferença, segundo ela, é o movimento. A dentista ensina a técnica de varrer: a escova vai da gengiva (o “vermelhinho”) para o dente (o “branquinho”), de cima para baixo nos dentes superiores e de baixo para cima nos inferiores, de dois em dois dentes e contando até 10. “Não é uma única varrida ali que vai limpar”, destaca.
5. “A quantidade de pasta não muda com a idade”
Muda, e a medida é pequena. Para crianças de 0 a 3 anos, Ana Paula orienta uma porção do tamanho de um grão de arroz. Depois disso, a quantidade de pasta deve ser equivalente ao tamanho de um grão de ervilha.
A ADA usa os mesmos parâmetros: grão de arroz para menores de 3 anos e ervilha dos 3 aos 6 anos. A Sociedade Brasileira de Pediatria indica o tamanho de arroz até os 2 anos e o de ervilha a partir daí.
Cobrir toda a escova de pasta não é necessário. A quantidade reduzida é justamente o que permite usar o flúor com segurança.
6. “A escova elétrica é sempre melhor que a manual”
A ADA mantém listas de escovas manuais e elétricas com o seu selo de aceitação, ou seja, as duas podem ser boas opções. A escolha pode levar em conta a adaptação da criança, o custo e a orientação do dentista.
O mais importante continua igual para qualquer modelo: nenhuma escova dispensa a ajuda dos pais.
Dentes de leite também precisam de prevenção

Uma crença que atravessa todas as outras é a de que dente de leite “vai cair mesmo”. Ana Paula explica que eles servem de guia para os permanentes. Se a criança perde um dente antes da hora, o espaço pode se fechar, e será preciso usar um mantenedor de espaço ou, depois, um aparelho, com gasto maior.
A Sociedade Brasileira de Pediatria também alerta que a cárie nos dentes de leite deve ser tratada logo, porque pode destruí-los rapidamente. “É nessa fase que a gente cria os bons hábitos”, afirma a dentista. Para ela, dentes de leite saudáveis tendem a levar a dentes permanentes saudáveis, e a prevenção sai mais barata do que tratamentos complexos.
Como equilibrar açúcar, fio dental e escovação no dia a dia?
A rotina que Ana Paula recomenda inclui escovar os dentes após as principais refeições, passar o fio dental pelo menos após o almoço e antes de dormir e escovar a língua para controlar a halitose (odor desagradável do ar expirado pela boca).
A dentista ressalta que a cárie é multifatorial: não adianta só controlar o açúcar nem só escovar. Ela diz que não é contra o açúcar, e sim a favor do “uso racional”.
Na prática, isso significa:
- priorizar a escovação e evitar doces pegajosos, como chocolate e biscoito recheado, entre as refeições, oferecendo fruta nesses intervalos;
- deixar os doces para depois de uma refeição, como o “dia da porcariada” no domingo, seguido de escovação;
- não dar mamadeira adoçada de madrugada e fazer a última escovação depois do leite com achocolatado, antes de dormir.
Quando levar a criança à consulta pela primeira vez?
Quanto à primeira consulta, ela recomenda ir quando nasce o primeiro dente, para aprender sobre escova, pasta, posição para escovar e açúcar.
O HRSA indica a visita quando o primeiro dente aparece ou, no máximo, até o primeiro aniversário. A frequência dos retornos depende do risco de cárie de cada criança. Segundo ela, nos planos odontológicos é comum o intervalo de seis meses. E não é preciso esperar dor ou sangramento: ir ao dentista para ouvir que está tudo bem cria o hábito e a confiança.
Levar a criança desde cedo, para uma limpeza tranquila e evitar frases que associam o dentista a dor ou injeção ajuda a evitar o medo. Se for para os pais começarem hoje por três hábitos, a dentista resume: visitar o dentista regularmente, escovar os dentes após as principais refeições e passar o fio dental.
Um cuidado que começa na pia do banheiro
Com o que a odontologia sabe hoje, as respostas ficam mais simples. Pasta com flúor, na medida de um grão de arroz ou de ervilha. Um adulto por perto, escovando junto ou conferindo. Movimentos de varrer, sem força. E uma visita ao dentista antes de qualquer dor.
Nenhum desses cuidados precisa ser perfeito todos os dias. O que faz diferença é a repetição, uma escovação de cada vez, até virar hábito, para a criança e para a família. Talvez a pausa de hoje, na pia do banheiro, seja um bom momento para começar.