Terra à vista

Reading Time: 3 minutesO PIB real deverá retrair cerca de 9% no segundo trimestre deste ano em relação ao primeiro trimestre, com ajuste sazonal. As manchetes do noticiário serão devastadoras, mostrando a queda abrupta do consumo das famílias e dos investimentos das empresas.  Importante lembrar que esses dados mostram o passado e escondem a recuperação da atividade econômica

Por: Eduardo Yuki
Atualizado em: 05/10/2020
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O PIB real deverá retrair cerca de 9% no segundo trimestre deste ano em relação ao primeiro trimestre, com ajuste sazonal. As manchetes do noticiário serão devastadoras, mostrando a queda abrupta do consumo das famílias e dos investimentos das empresas. 

Importante lembrar que esses dados mostram o passado e escondem a recuperação da atividade econômica ocorrida nos últimos dois meses. 

A redução do isolamento e os estímulos extraordinários do governo (especialmente o auxílio emergencial) possibilitaram uma forte expansão das vendas de varejo em maio, como mostra a Figura 1.  Assim, o consumo já recuperou metade da queda ocorrida entre março e abril.

Figura 1: Vendas de varejo iniciou recuperação em maio.

Fonte: IBGE. Elaboração: Eduardo Yuki.

Indicadores de faturamento do varejo e confiança do comércio sinalizam que as vendas continuaram em recuperação em junho e início de julho.

Essa melhora da demanda precisa ser respondida por aumento de produção, o que também está acontecendo. O Nível de Utilização da Capacidade Instalada da indústria de transformação recuperou metade da queda ocorrida no auge da crise.   

Figura 2: Nível de utilização da capacidade instalada da indústria de transformação em recuperação.

Fonte: FGV. Elaboração Eduardo Yuki.

Diante da retomada da produção, a carga de energia elétrica, o fluxo de veículos pesados nas estradas e o consumo de diesel estão voltando para o mesmo patamar do ano passado. Enfim, a recuperação da atividade econômica já começou. 

Nunca subestime um estímulo fiscal

A extensão do auxílio emergencial por mais dois meses aumentou o pacote de estímulos fiscais para inacreditáveis 11,3% do PIB. 

A principal medida é o auxílio emergencial, que atinge 64,5 milhões de pessoas e injetará mais de R$ 250 bilhões no orçamento das famílias nesse ano, equivalente a cerca de 5,2% do gasto anual com consumo.

Utilizando dados do mercado de trabalho, estimamos que a massa salarial real reduzirá em 5,5% neste ano (demissão de 11,5 milhões de pessoas). Assim, parte relevante da queda da massa salarial será compensada pelo auxílio emergencial, como mostra a Figura 3.

Figura 3: Orçamento das famílias deve apresentar queda pequena nesse ano.

Fonte: IBGE. Elaboração: Eduardo Yuki. 

Nunca subestime um estímulo monetário.

O Banco Central reduziu a taxa Selic para apenas 2,25% ao ano e adotou várias medidas de liberação de liquidez e capital ao sistema financeiro.

A principal medida foi a liberação de R$ 205 bilhões em depósitos compulsórios, o que significa maior volume de recursos disponível para os bancos emprestarem.  

A recuperação da confiança dos empresários e dos consumidores ao longo dos próximos trimestres incentivará que parte desses recursos virem crédito para as empresas e as pessoas. 

Figura 4: Forte expansão da liquidez monetária deverá estimular o mercado de crédito no médio prazo.

Fonte: BCB e Eduardo Yuki. 

Portanto, a redução do isolamento social, o impulso fiscal extraordinário e estímulo monetário significativo devem ajudar na recuperação da atividade econômica no segundo semestre. Os dados negativos ficaram para trás. Reitero a projeção de retração do PIB real brasileiro em 4,5%, menos pessimista do que o consenso.

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