Por que as doenças autoimunes atingem mais mulheres?

Reading Time: 4 minutesAlém dos hormônios, estudos recentes apontam para o papel do cromossomo X e de genes ligados à resposta imunológica.

Por: Marcia Tojal
Atualizado em: 21/09/2026
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Mulher em uma sala de espera confortável, sentada e lendo um folheto, em ambiente de atendimento, sugerindo apoio e informação sobre doenças autoimunes em mulheres
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Quando o sistema imunológico funciona como deveria, ele reconhece vírus, bactérias e outros agentes potencialmente prejudiciais e mobiliza as defesas do organismo. Mas, nas doenças autoimunes, essa capacidade de reconhecimento sofre uma alteração: células e tecidos do próprio corpo passam a ser identificados como ameaças e podem ser atacados pelo sistema de defesa.

Lúpus, artrite reumatoide e esclerose múltipla são alguns exemplos. E todas elas atingem desproporcionalmente as mulheres.

Segundo os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), cerca de quatro em cada cinco pessoas diagnosticadas com uma doença autoimune são mulheres. A proporção varia bastante de acordo com a condição. Por exemplo, no lúpus eritematoso sistêmico, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) estima que nove em cada dez pessoas com a doença sejam mulheres.

A resposta para esse quadro ainda está sendo construída pela ciência e envolve muito mais do que hormônios.

Quando a defesa se volta contra o próprio organismo

As doenças autoimunes não formam um único grupo com uma causa individual. Fatores genéticos, ambientais e imunológicos podem interagir de maneiras diferentes em cada condição. O que elas têm em comum é uma perda de tolerância imunológica: de alguma forma, o sistema de defesa passa a reagir contra componentes do próprio organismo.

Durante muito tempo, os hormônios sexuais foram os principais fatores considerados nas tentativas de explicar por que tantas dessas doenças são mais frequentes em mulheres. Estrogênio, progesterona e testosterona podem interferir no funcionamento das células de defesa e na produção de substâncias envolvidas na resposta imunológica.

Mas as pesquisas mais recentes têm voltado a atenção para outro ponto fundamental: os cromossomos sexuais, especialmente o cromossomo X.

O segundo cromossomo X pode fazer diferença

Infográfico sobre doenças autoimunes em mulheres com ícones de células, DNA e sistema imunológico, mostrando possíveis gatilhos e mecanismos no corpo.
Ilustração gerada digitalmente

Em geral, mulheres possuem dois cromossomos X, enquanto homens possuem um X e um Y. Ter dois X não significa simplesmente produzir o dobro das proteínas codificadas pelos genes presentes nesse cromossomo.

Nas células femininas, ocorre um processo chamado inativação do cromossomo X. Ainda no desenvolvimento embrionário, um deles, de cada célula, é amplamente silenciado, ajudando a equilibrar a quantidade de produtos dos genes ligados a ele. Só que esse mecanismo não é absoluto.

Alguns genes conseguem escapar total ou parcialmente dessa inativação. Isso significa que determinadas células podem produzir uma quantidade maior de produtos de genes localizados no cromossomo X. E vários deles participam justamente do funcionamento do sistema imunológico.

Um estudo publicado pela Nature destaca, entre outros exemplos, os genes TLR7 e TLR8, localizados no cromossomo X e envolvidos no reconhecimento de material genético por células do sistema imunológico.

Quando esses receptores são ativados, ajudam a desencadear mecanismos de defesa contra ameaças, incluindo a produção de moléculas inflamatórias. O problema é que uma ativação excessiva dessas vias também pode favorecer respostas contra o próprio organismo. 

A revisão aponta que o escape de TLR7 e TLR8 da inativação do X em algumas células imunológicas pode contribuir para diferenças entre homens e mulheres na suscetibilidade à autoimunidade.

Uma nova pista encontrada no lúpus

Em 2025, pesquisadores acrescentaram outra peça a essa investigação. Um estudo publicado pela Nature analisou o papel do SMC1A. Trata-se de um outro gene localizado no cromossomo X, que pode escapar parcialmente de sua inativação.

Os pesquisadores observaram uma expressão maior de SMC1A em monócitos, que são células do sistema imunológico, de mulheres com lúpus eritematoso sistêmico. Nos experimentos, esse gene apareceu associado à regulação de outros envolvidos em processos imunológicos e inflamatórios.

Em condições semelhantes às encontradas no lúpus, a proteína produzida pelo SMC1A se redistribuiu para regiões reguladoras de genes ligados à inflamação, contribuindo para aumentar sua atividade. Quando os pesquisadores fizeram o movimento contrário e silenciaram experimentalmente o SMC1A, a expressão de vários genes associados ao lúpus diminuiu. O resultado reforça a hipótese de que uma atividade maior do SMC1A ajude a intensificar o programa inflamatório dessas células. 

Isso não significa que exista um “gene do lúpus” responsável pela maior ocorrência da doença entre mulheres. O próprio estudo apresenta o SMC1A como um mecanismo que pode contribuir para essa diferença, dentro de uma combinação muito mais ampla de fatores genéticos, hormonais, imunológicos e ambientais.

Uma defesa mais forte também pode ter outro lado

Há uma aparente contradição nessa história. Características que tornam a resposta imunológica mais vigorosa podem ser vantajosas diante de determinados agentes infecciosos, mas também podem aumentar a possibilidade de uma resposta exagerada ou inadequadamente direcionada.

Uma revisão da Nature destaca que existem diferenças entre os sexos tanto na imunidade inata (a primeira linha de defesa) quanto na imunidade adaptativa (responsável por respostas mais específicas). Os cromossomos sexuais e os hormônios estão entre os fatores capazes de influenciar essas diferenças.

É justamente essa dualidade que ajuda a ciência a formular novas perguntas sobre a autoimunidade: uma resposta de defesa particularmente eficiente pode, em determinadas circunstâncias e diante de outras predisposições, tornar-se também uma vulnerabilidade?

As descobertas sobre TLR7, TLR8, SMC1A e outros genes não encerram essa discussão. Pelo contrário. Elas mostram que a diferença entre homens e mulheres na ocorrência de doenças autoimunes provavelmente não tem uma única causa.

Entender esses mecanismos pode ajudar não apenas a explicar por que tantas mulheres convivem com doenças autoimunes, mas também a identificar novos caminhos para diagnóstico, prevenção e tratamento. Afinal, compreender por que o sistema imunológico funciona de maneira diferente entre indivíduos também é parte do caminho para tornar o cuidado cada vez mais preciso e individualizado.

Dúvidas mais comuns

Mulheres representam cerca de quatro em cada cinco pessoas diagnosticadas com doenças autoimunes, segundo os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos. Essa diferença é explicada por uma combinação de fatores genéticos, hormonais e imunológicos. O cromossomo X, que as mulheres possuem em dobro, contém vários genes relacionados ao sistema imunológico que podem escapar parcialmente da inativação, resultando em uma resposta imunológica mais vigorosa e, em algumas circunstâncias, mais propensa a reações autoimunes.

Uma doença autoimune ocorre quando o sistema imunológico perde sua capacidade de reconhecimento e passa a atacar células e tecidos do próprio corpo, identificando-os como ameaças. Diferentemente de uma resposta imunológica normal, que combate vírus e bactérias, nas doenças autoimunes essa defesa se volta contra o organismo. Exemplos incluem lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide e esclerose múltipla. O desenvolvimento envolve a interação de fatores genéticos, ambientais e imunológicos que variam de acordo com cada condição.

As mulheres possuem dois cromossomos X, enquanto os homens possuem um X e um Y. Nas células femininas, ocorre um processo chamado inativação do cromossomo X, onde um deles é silenciado durante o desenvolvimento embrionário para equilibrar a produção de proteínas. Porém, alguns genes conseguem escapar dessa inativação, permitindo que determinadas células produzam quantidades maiores de proteínas relacionadas ao sistema imunológico. Vários genes no cromossomo X, como TLR7 e TLR8, participam do reconhecimento de ameaças e, quando ativados em excesso, podem favorecer respostas contra o próprio organismo.

TLR7 e TLR8 são genes localizados no cromossomo X envolvidos no reconhecimento de material genético por células do sistema imunológico. Quando ativados, esses receptores desencadeiam mecanismos de defesa contra ameaças, incluindo a produção de moléculas inflamatórias. O problema é que uma ativação excessiva dessas vias pode favorecer respostas contra o próprio organismo. O escape parcial desses genes da inativação do X em células imunológicas pode contribuir significativamente para as diferenças entre homens e mulheres na suscetibilidade à autoimunidade.

SMC1A é um gene localizado no cromossomo X que pode escapar parcialmente de sua inativação. Pesquisadores observaram uma expressão maior de SMC1A em monócitos (células do sistema imunológico) de mulheres com lúpus eritematoso sistêmico. Esse gene está associado à regulação de outros genes envolvidos em processos imunológicos e inflamatórios. Quando silenciado experimentalmente, a expressão de vários genes associados ao lúpus diminuiu, reforçando a hipótese de que uma atividade maior do SMC1A intensifica o programa inflamatório dessas células.

Não. Embora estrogênio, progesterona e testosterona possam interferir no funcionamento das células de defesa e na produção de substâncias envolvidas na resposta imunológica, pesquisas recentes mostram que os cromossomos sexuais, especialmente o cromossomo X, desempenham um papel fundamental. A diferença entre homens e mulheres na ocorrência de doenças autoimunes provavelmente não tem uma única causa, mas resulta de uma combinação complexa de fatores genéticos, hormonais, imunológicos e ambientais.

Sim. Características que tornam a resposta imunológica mais vigorosa podem ser vantajosas diante de determinados agentes infecciosos, mas também podem aumentar a possibilidade de uma resposta exagerada ou inadequadamente direcionada. Existem diferenças entre os sexos tanto na imunidade inata (primeira linha de defesa) quanto na imunidade adaptativa (respostas mais específicas). Essa dualidade ajuda a ciência a formular novas perguntas: uma resposta de defesa particularmente eficiente pode, em determinadas circunstâncias e diante de outras predisposições, tornar-se também uma vulnerabilidade?

As doenças autoimunes mais comuns incluem lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide, esclerose múltipla, doença celíaca, esclerodermia e alopecia areata. A proporção de mulheres afetadas varia bastante de acordo com a condição. Por exemplo, no lúpus eritematoso sistêmico, estima-se que nove em cada dez pessoas com a doença sejam mulheres, enquanto em outras condições a proporção pode ser menor, mas ainda significativamente maior que em homens.

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