Durante muito tempo, a vida profissional pareceu seguir um roteiro previsível: estudar, construir uma carreira, trabalhar por algumas décadas e, finalmente, aposentar-se. A longevidade, está reescrevendo esse roteiro e permite ampliar o horizonte de decisões sobre trabalho, renda e aposentadoria. A questão deixa de ser apenas quando parar de trabalhar e se torna algo mais amplo sobre como organizar a vida profissional nas décadas que podem vir depois dos 60.
Mas você pode estar se perguntando: quantos brasileiros com mais de 60 anos ainda trabalham? A resposta pode surpreender: quase um em cada quatro. Em 2024, 24,4% dos brasileiros nesta faixa etária possuíam vida profissional ativa, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE.
Olhar para este cenário com mais profundidade traz uma visão do que esse público representa hoje, no mercado de trabalho:
- Do total, 34,2% são homens e 16,7% são mulheres
- Do grupo entre 60 e 69 anos, 36,2% estavam ocupados, sendo 48% dos homens e 26,2% das mulheres.
A presença das pessoas mais velhas no mercado também vem aumentando:
- São 34,1 milhões de brasileiros, com mais de 60 anos, em 2024. Em 2012 eram 22 milhões.
- Essa população ativa passou de 22% para 24,4%.
Vida mais longa, carreira também?
A mudança acontece enquanto o próprio Brasil envelhece. De acordo com as Tábuas Completas de Mortalidade do IBGE, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024, sendo 79,9 anos para as mulheres e 73,3 anos para os homens.
E essa tendência deve continuar nas próximas décadas. As Projeções da População do IBGE indicam que a parcela de pessoas com 60 anos ou mais, que representava 8,7% da população em 2000 e chegou a 15,6% em 2023, poderá alcançar 37,8% em 2070, quando a expectativa de vida ao nascer deverá chegar a 83,9 anos.
O que fazer com esse tempo a mais? Isso não significa simplesmente acrescentar alguns anos ao fim da carreira, como alguém que estica um pouco o prazo de algo já planejado. Significa repensar a própria organização da vida adulta.
Pense assim: uma pessoa que chega aos 60 anos com saúde e disposição, pode ter pela frente mais duas ou três décadas, quase uma vida inteira que imaginávamos anteriormente. Nesse cenário, a aposentadoria nem sempre representa uma ruptura completa com o trabalho. Ela pode representar outra coisa: reduzir a jornada, prestar consultoria, empreender, mudar de profissão ou exercer uma atividade com outro ritmo podem fazer parte dessa fase. Mas vale uma ressalva que não pode ficar de fora: continuar trabalhando nem sempre é uma escolha.
Trabalhar depois dos 60: escolha ou necessidade?
As duas opções podem ser reais e a resposta muda de pessoa para pessoa. A permanência das pessoas mais velhas no mercado de trabalho resulta de uma combinação de fatores. O IBGE cita, entre eles, o aumento da expectativa de vida, mudanças nos arranjos familiares e alterações nas regras previdenciárias.
Os dados também mostram que continuar profissionalmente ativo depois dos 60 não significa necessariamente permanecer no mesmo emprego ou vínculo por mais tempo. Em 2024, 43,3% dos trabalhadores com 60 anos ou mais atuavam por conta própria, ante 25,2% entre todas as pessoas ocupadas de 14 anos ou mais. Outros 7,8% eram empregadores. Ou seja, a extensão da vida profissional também pode vir acompanhada de novas formas de inserção no trabalho, como atuação autônoma e empreendedorismo.
Mas permanecer economicamente ativo nessa fase da vida nem sempre é apenas uma escolha de carreira. A renda das pessoas mais velhas pode ter peso relevante no orçamento de toda a família. Um estudo do Ipea, com dados da PNAD Contínua de 2018, mostrou que a renda das pessoas idosas correspondia, em média, a 69,8% da renda dos domicílios em que viviam. Desse total, 56,3% vinham de aposentadorias e pensões e 34,8%, do trabalho.
Embora o dado seja de 2018, ele ajuda a demonstrar o peso econômico da decisão de continuar trabalhando depois dos 60. Se para algumas pessoas, representa autonomia para redesenhar a carreira, empreender ou seguir em uma atividade profissional. Para outras, a renda do trabalho continua sendo parte importante do sustento próprio e familiar.
Por trás dessa realidade o debate sobre longevidade e trabalho também passa pelas condições que permitem essa permanência: o acesso a oportunidades, a atualização profissional, as condições adequadas de trabalho e o enfrentamento ao etarismo.
Aposentar-se e parar de trabalhar são coisas diferentes
A longevidade acrescenta outra variável ao planejamento: o dinheiro precisa acompanhar uma vida potencialmente mais longa.
Para quem ingressou no Regime Geral de Previdência Social depois da Reforma da Previdência, a aposentadoria programada do INSS exige idade mínima de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens. Também são necessários, em regra, pelo menos 15 anos de contribuição para mulheres e 20 para homens, além da carência de 180 contribuições.
Quem já contribuía antes da reforma pode estar sujeito a regras de transição. Como existem diferentes modalidades e condições, os requisitos individuais devem ser conferidos nas regras de aposentadorias apresentadas pelo INSS.
Cumprir os requisitos previdenciários e decidir parar de trabalhar, entretanto, são coisas diferentes. Uma pessoa pode receber a aposentadoria e continuar profissionalmente ativa. Por outro lado, problemas de saúde, desemprego, responsabilidades familiares ou desgaste físico podem tornar difícil trabalhar até a idade imaginada. Isso mostra por que planejar a longevidade com base apenas na expectativa de “trabalhar por mais tempo” pode ser arriscado.
Planejamento financeiro também significa ampliar escolhas
Planejar uma vida longa envolve pensar em diferentes fontes de segurança financeira. Previdência pública, reservas, investimentos, patrimônio, seguros e previdência complementar podem desempenhar funções distintas, conforme a realidade e os objetivos de cada pessoa.
A previdência complementar, por exemplo, é facultativa e permite acumular recursos destinados a complementar a renda na aposentadoria. Já a previdência privada é uma forma de ir construindo, aos poucos, um horizonte financeiro mais amplo para as décadas que vem depois dos 60. No seu ritmo. Dentro da sua realidade.
Vale lembrar que ela não substitui a necessidade de avaliar orçamento, dívidas, reservas para emergências e proteção contra acontecimentos capazes de comprometer a renda familiar. Porém é um complemento importante para viver essa fase de forma planejada e mais tranquila.
Esse planejamento também não deve partir da certeza de que tudo acontecerá exatamente conforme o previsto. Uma boa estratégia para a longevidade precisa considerar diferentes cenários: viver por mais tempo do que o estimado, precisar reduzir o ritmo antes do planejado, atravessar períodos sem renda ou ajudar financeiramente outros integrantes da família.
É nesse sentido que contar com uma previdência complementar bem estruturada faz diferença: ela funciona como uma camada extra de segurança, dando mais fôlego para lidar com o inesperado. Quanto maior a autonomia financeira, maior tende a ser a possibilidade de transformar o trabalho depois dos 60 em escolha e não somente em necessidade.
Planejar a longevidade é planejar possibilidades
A grande virada que a longevidade pode trazer para a vida profissional é esta: a aposentadoria deixa de ser apenas uma data no calendário e passa a ser um horizonte aberto.
Planejar as próximas décadas pode incluir começar uma segunda carreira aos 50 anos, reduzir o ritmo aos 60, continuar exercendo uma atividade aos 70 ou reservar mais tempo para família, lazer, estudo e projetos pessoais. Não existe uma fórmula única, pois condições de saúde, renda e trajetória profissional são profundamente diferentes de pessoa para pessoa.
Os números brasileiros mostram, porém, que trabalho e envelhecimento já estão cada vez mais entrelaçados. Se quase um quarto das pessoas com 60 anos ou mais continua ocupado e a participação da população idosa no país tende a crescer, pensar na longevidade passa necessariamente por pensar também no futuro do trabalho.
A pergunta “quanto preciso guardar para me aposentar?” continua importante. Mas, sozinha, já não parece o suficiente. É preciso perguntar também: como quero trabalhar, financiar minhas escolhas e viver as próximas décadas após os 60?
Dúvidas mais comuns
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Quase um em cada quatro brasileiros com mais de 60 anos ainda trabalham. Em 2024, 24,4% dessa população possuía vida profissional ativa, segundo o IBGE. Entre os homens, esse percentual é de 34,2%, enquanto entre as mulheres é de 16,7%. Na faixa etária de 60 a 69 anos, a taxa de ocupação é ainda maior: 36,2%, com 48% dos homens e 26,2% das mulheres trabalhando.
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A expectativa de vida no Brasil chegou a 76,6 anos em 2024 e deve continuar aumentando. Isso significa que uma pessoa aos 60 anos pode ter mais duas ou três décadas pela frente, quase uma vida inteira. Nesse cenário, a aposentadoria deixa de ser apenas uma data final e passa a ser um horizonte aberto, permitindo que as pessoas repensem como organizar sua vida profissional, reduzindo jornadas, empreendendo, mudando de profissão ou exercendo atividades com outro ritmo.
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Pode ser ambas as coisas, dependendo da situação de cada pessoa. Enquanto alguns veem a continuidade profissional como oportunidade para redesenhar a carreira e empreender, para outros a renda do trabalho é essencial para o sustento próprio e familiar. Dados do Ipea mostram que a renda das pessoas idosas corresponde, em média, a 69,8% da renda dos domicílios em que vivem, sendo 34,8% proveniente do trabalho. Fatores como aumento da expectativa de vida, mudanças nos arranjos familiares e alterações nas regras previdenciárias influenciam essa decisão.
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A extensão da vida profissional vem acompanhada de novas formas de trabalho. Em 2024, 43,3% dos trabalhadores com 60 anos ou mais atuavam por conta própria, comparado a 25,2% entre todas as pessoas ocupadas. Outros 7,8% eram empregadores. Isso mostra que muitos optam por autonomia, consultoria, empreendedorismo e outras atividades que oferecem maior flexibilidade do que o emprego tradicional.
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Para quem ingressou no Regime Geral de Previdência Social após a Reforma da Previdência, a aposentadoria programada exige idade mínima de 62 anos para mulheres e 65 anos para homens, além de pelo menos 15 anos de contribuição para mulheres e 20 para homens, e carência de 180 contribuições. Quem já contribuía antes da reforma pode estar sujeito a regras de transição. É importante verificar os requisitos individuais nas regras apresentadas pelo INSS.
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Uma pessoa pode cumprir os requisitos previdenciários e receber aposentadoria, mas continuar profissionalmente ativa. Por outro lado, problemas de saúde, desemprego, responsabilidades familiares ou desgaste físico podem tornar difícil trabalhar até a idade planejada. Isso mostra por que planejar a longevidade apenas com base na expectativa de 'trabalhar por mais tempo' pode ser arriscado, sendo necessário considerar diferentes cenários e contingências.
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A previdência complementar é facultativa e permite acumular recursos para complementar a renda na aposentadoria, funcionando como uma camada extra de segurança financeira. Quanto maior a autonomia financeira através de diferentes fontes (previdência pública, reservas, investimentos, patrimônio, seguros e previdência complementar), maior tende a ser a possibilidade de transformar o trabalho depois dos 60 em escolha e não somente em necessidade.
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O planejamento para a longevidade deve considerar diferentes cenários: viver por mais tempo do que estimado, precisar reduzir o ritmo antes do planejado, atravessar períodos sem renda ou ajudar financeiramente a família. Não existe uma fórmula única, pois condições de saúde, renda e trajetória profissional variam de pessoa para pessoa. O importante é pensar não apenas em 'quanto guardar para se aposentar', mas também em 'como quero trabalhar, financiar minhas escolhas e viver as próximas décadas após os 60'.