Super El Niño 2026–2027: fenômeno climático acende alerta também para a saúde

Fenômeno previsto para permanecer ativo até o início de 2027 pode intensificar calor, secas, queimadas e chuvas extremas, exigindo prevenção e planejamento dos sistemas público e suplementar de saúde.

Por: Marcia Tojal
Atualizado em: 29/09/2026
7 min
El Niño e saúde: pessoa de costas sob um guarda-chuva verde em dia chuvoso, observando a cidade ao fundo com céu nublado e clima úmido
Foto: Chalabala / Adobe Stock / Modificada com IA

Quando se fala em El Niño, é comum pensar em termômetros mais altos, secas extremas ou chuvas excessivas. Mas os efeitos do fenômeno não terminam na previsão do tempo: eles podem chegar às unidades básicas, aos prontos-socorros e aos hospitais na forma de mais atendimentos por problemas respiratórios, cardiovasculares, infecciosos e relacionados ao calor.

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, capaz de alterar a circulação atmosférica e os padrões de temperatura e chuva em diferentes partes do mundo. No Brasil, seus efeitos variam conforme a região e também dependem da interação com outros sistemas climáticos.

Uma nota técnica conjunta de INPE, INMET, Funceme e Censipam já alertava, em abril de 2026, para a alta probabilidade de formação do fenômeno no segundo semestre. Desde então, o El Niño se estabeleceu e ganhou força. As previsões mais recentes indicam sua permanência até, pelo menos, o início de 2027.

O cenário não significa que todas as regiões enfrentarão os mesmos eventos. O que torna o tema ainda mais complexo, do ponto de vista de gestão e políticas públicas que sejam capazes de minimizar seus efeitos sobre a população e à infraestrutura das cidades. 

Historicamente, episódios de El Niño estão associados à redução das chuvas em partes do Norte e do Nordeste e ao aumento da precipitação no Sul. No Sudeste e no Centro-Oeste, podem ocorrer temperaturas mais elevadas, períodos secos, baixa umidade e chuvas distribuídas de maneira irregular. Por isso, o alerta precisa considerar riscos diferentes e, algumas vezes, simultâneos.

Calor e fumaça sobrecarregam o organismo

El Niño e saúde: Termômetro digital mostra alta temperatura em uma avenida movimentada com carros e prédios altos ao fundo
Foto: Nelson Antoine / Shutterstock

As ondas de calor podem provocar desidratação, exaustão térmica, insolação, queda de pressão, confusão mental e perda de consciência. O organismo também precisa trabalhar mais para controlar sua temperatura, o que pode agravar doenças cardiovasculares, renais e respiratórias.

Pessoas idosas, crianças, gestantes, trabalhadores expostos ao sol, pessoa em situação de rua e pacientes com doenças crônicas estão entre os grupos mais vulneráveis. O risco também é maior para quem vive em casas pouco ventiladas ou não tem acesso regular à água potável e a ambientes mais frescos.

Já a combinação de seca, temperaturas elevadas e baixa umidade favorece incêndios florestais e dificulta a dispersão de poluentes. Segundo o Ministério da Saúde, a fumaça contém material particulado fino, conhecido como MP2,5, capaz de penetrar profundamente no sistema respiratório. A exposição prolongada pode agravar doenças respiratórias e cardiovasculares e aumentar atendimentos e hospitalizações.

Além de ardência nos olhos, tosse e irritação na garganta, a poluição pode desencadear crises de asma e piorar quadros de bronquite e outras doenças preexistentes. Crianças, pessoas idosas e indivíduos com problemas cardíacos ou pulmonares demandam atenção especial.

Chuva também pode significar risco sanitário

El Niño e saúde: Pessoas caminhando em uma rua durante forte chuva, com guarda-chuvas refletidos no asfalto molhado e prédios ao fundo, em um dia nublado.
Foto: Iara Faga / Shutterstock

Nas áreas sujeitas a chuvas intensas e enchentes, o perigo muda de forma. O contato com água ou lama contaminada pela urina de animais pode aumentar o risco de leptospirose. Danos aos sistemas de abastecimento e saneamento também representam risco de contaminação da água e dos alimentos, criando condições para doenças diarreicas e hepatites de transmissão fecal-oral.

As inundações ainda podem interromper consultas, dificultar o acesso a medicamentos e o deslocamento de ambulâncias e equipes, além de causar danos aos estabelecimentos médicos, impactando a capacidade de atendimento à população. Para pessoas que dependem de diálise, oxigênio, insulina ou outros cuidados contínuos, uma interrupção aparentemente curta pode representar um grande risco.

Por essas razões, a nota técnica do Observatório de Clima e Saúde da Fiocruz e da Universidade Federal de Santa Maria recomenda que a preparação para o El Niño inclua a continuidade da assistência a pessoas com doenças crônicas e o reforço da vigilância de leptospirose, doenças diarreicas, dengue, zika e chikungunya, além dos agravos relacionados à fumaça e ao calor.

E o mosquito?

Inseto em destaque sobre uma superfície com gotículas, com fundo desfocado em tons azulados, sugerindo atenção a fatores ambientais e possíveis impactos na El Niño e saúde.
Foto: J. Bonfante / Shutterstock

Temperatura, umidade e disponibilidade de água interferem no ciclo dos mosquitos e na circulação das doenças que eles transmitem. Isso não significa, porém, que o El Niño provoque automaticamente uma epidemia de dengue ou chikungunya.

O risco depende da combinação entre condições climáticas, presença do vetor, circulação dos vírus, imunidade da população, saneamento, armazenamento de água e capacidade de controle. Períodos de chuva podem criar criadouros, enquanto a escassez hídrica pode levar ao armazenamento doméstico de água sem proteção adequada. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) ressalta que os impactos sanitários do El Niño variam conforme as condições locais e as vulnerabilidades existentes.

Da prevenção à resposta: gerir o risco antes da emergência

A gestão de eventos climáticos extremos não começa quando o pronto-socorro lota ou quando uma enchente interrompe o atendimento. A Política Nacional de Proteção e Defesa Civil organiza esse trabalho em cinco eixos conectados. A lógica também consta nos referenciais da OMS para gestão de emergências e desastres em saúde: 

  1. Prevenção: reduzir vulnerabilidades e evitar que determinados riscos se agravem;
  2. Mitigação: limitar os impactos que não podem ser totalmente evitados; 
  3. Preparação: organizar equipes, estoques, protocolos, sistemas de alerta e infraestrutura para responder melhor; 
  4. Resposta: agir durante a emergência;  
  5. Recuperação: restabelecer serviços e condições de funcionamento depois do evento. 

A sequência muda o foco da reação para a antecipação. Se previsões climáticas indicam maior risco de calor extremo, fumaça, enchentes ou aumento de determinadas doenças, a rede pode agir antes: identificar territórios e grupos mais vulneráveis, ajustar estoques, organizar fluxos assistenciais e proteger serviços essenciais.

Preparar a rede antes do aumento da demanda

Para o Sistema Único de Saúde (SUS) e a saúde suplementar, preparação significa cruzar previsões meteorológicas com dados epidemiológicos e assistenciais. A estratégia permite identificar territórios mais expostos e estimar necessidades.

Unidades de saúde podem revisar planos de contingência, garantir estoques essenciais e organizar fluxos específicos para ondas de calor, fumaça e/ou doenças virais transmitidas por mosquitos, como dengue, zika e chikungunya (arboviroses) e doenças relacionadas às enchentes. Hospitais e clínicas também precisam avaliar a segurança do abastecimento de água e energia, a refrigeração de medicamentos e a continuidade dos sistemas digitais.

População também pode participar da prevenção

No dia a dia, pequenas atitudes também podem colaborar para reduzir os efeitos do El Niño sobre a saúde das comunidades. 

Inundação e alagamento

Manter ralos, calhas e sistemas de drenagem livres de folhas e sujeiras e nunca jogar lixo em ruas, bueiros e córregos ajuda a reduzir o risco de alagamentos e enchentes. 

O Ministério da Saúde  recomenda seguir as orientações da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros: evitar o contato com a água da enchente e redobrar os cuidados com a água para consumo, os alimentos e a higiene pessoal. 

A exposição à água contaminada pode favorecer a transmissão de doenças, como leptospirose e hepatite A, enquanto o acúmulo de entulhos e destroços aumenta o risco de acidentes com animais peçonhentos. Após uma enchente, sintomas como febre, dor de cabeça, náuseas, vômitos e diarreia exigem atenção e podem indicar a necessidade de atendimento médico 

Calor extremo

Para se prevenir contra o calor extremo, a recomendação do Ministério da Saúde  é beber água regularmente, mesmo sem sentir sede, evitar atividades ao ar livre nos horários mais quentes do dia e procurar ambientes frescos e sombreados.

Ao sair de casa, a orientação é usar roupas leves, de cores claras, chapéus ou bonés e protetor solar com FPS 30 ou superior, com proteção contra os raios UVA e UVB. O produto deve ser reaplicado a cada duas horas de exposição solar ou antes, em caso de transpiração intensa, contato com a água ou uso de toalha para secar a pele 

Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças renais, cardíacas, respiratórias ou circulatórias, além de pessoas com diabetes, estão entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos das altas temperaturas e precisam de atenção redobrada. Fraqueza, tontura, náuseas, dor de cabeça e cãibras musculares são alguns dos sinais de alerta que exigem avaliação em uma unidade de saúde. 

Secas

Nas regiões afetadas pela fumaça das queimadas, a orientação do Ministério da Saúde é evitar atividades físicas ao ar livre, permanecer em ambientes fechados nos períodos de maior concentração de poluentes e, quando necessário sair de casa, utilizar máscaras do tipo N95 ou PFF2, que ajudam a reduzir a inalação de partículas presentes na fumaça. Além disso, é importante nunca colocar fogo em terrenos, lixo ou áreas com qualquer tipo de vegetação. Em tempo seco, qualquer faísca pode ser o início de uma queimada. 

Mantenha-se informado! Envie um SMS com o seu CEP para o número 40199 para receber alertas gratuitos da Defesa Civil e fique de olho nas previsões do Cemaden/MCTI e do Inmet. 

Mantenha-se informado

Acompanhar os alertas meteorológicos e de risco de desastres também ajuda a a se preparar para eventos extremos. Dois canais oficiais permitem consultar as condições previstas para cada região e receber orientações de segurança:

  1. Defesa Civil: pelo serviço gratuito de alertas, é possível receber mensagens sobre riscos de desastres na região cadastrada, acompanhadas de recomendações de segurança e orientações sobre medidas emergenciais. Para se cadastrar, basta enviar um SMS com o CEP para o número 40199. É possível incluir mais de um endereço, como o de casa, do trabalho ou da escola dos filhos.
  2. Cemaden e Inmet: o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), publica boletins sobre riscos de enchentes, enxurradas e deslizamentos, indicando as regiões que exigem maior atenção. Já o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) disponibiliza um mapa de avisos meteorológicos por região, incluindo chuvas intensas, tempestades, ondas de calor, baixa umidade e estiagem. Os avisos são classificados em três níveis de severidade: perigo potencial, perigo e grande perigo.

Saber que o El Niño é uma realidade permite agir antes que seus impactos cheguem. Monitorar riscos, reduzir vulnerabilidades, responder rapidamente e recuperar serviços fazem parte de uma mesma lógica de gestão e prevenção. 

ANOTE!

Defesa Civil — Alertas por SMS
Receba alertas sobre riscos de desastres e recomendações de segurança para os CEPs cadastrados.

Cemaden — Previsão de riscos geo-hidrológicos
Consulte os boletins de risco de inundações, enxurradas e movimentos de massa, como deslizamentos.

Inmet — Mapa de avisos meteorológicos
Consulte os fenômenos previstos, as áreas afetadas, o período de validade e o nível de severidade dos avisos.

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