O cérebro é o órgão que mais define quem somos e, por muito tempo, um dos mais difíceis de estudar por dentro. Em palestra na Convenção Nacional Unimed 2026, o neurocientista brasileiro Alysson Muotri resumiu a questão em uma frase: “O cérebro humano começa dentro do útero e termina dentro da caixa craniana, sempre inacessível às ferramentas de biologia molecular e celular”.
Ele se tornou um dos pioneiros, em todo mundo, no desenvolvimento dos minicérebros. Muotri contou que a pesquisa também tem um motivo pessoal: o filho, Ivan, diagnosticado com autismo não verbal severo e outras condições associadas. Foi essa vivência que orientou o trabalho para o encontro entre genética e neurociência.
Você pode estar se perguntando: o que são esses minicérebros? Eles são pequenos tecidos neurais tridimensionais criados em laboratório a partir de células-tronco pluripotentes, que são células capazes de dar origem a vários tipos de tecido. Eles não pensam nem sentem: servem como modelo para observar como o cérebro se forma e o que acontece quando algo dá errado. Ou seja, se tornam uma ferramenta importante para estudar questões fundamentais no desenvolvimento neurológico.

Por que a neurociência demorou mais que outras áreas?
Porque o tecido do cérebro vivo quase nunca está ao alcance do pesquisador. Segundo Muotri, é isso que explica por que a neurociência avançou mais devagar do que áreas como a cardiologia e a pneumologia, em que é mais simples observar e estudar o órgão.
É como tentar entender um relógio sem nunca poder abrir a caixa. Os minicérebros não são o relógio inteiro, mas permitem ver parte das engrenagens funcionando.
O que os minicérebros conseguem e o que ainda não conseguem?
Eles reproduzem as fases iniciais do desenvolvimento cerebral, mas ainda têm limites importantes. Os organoides do laboratório de Muotri chegam a cerca de 0,5 centímetro de diâmetro.
Os principais desafios, segundo o pesquisador, são a ausência de vasos sanguíneos e a imaturidade das células. São limitações que a ciência está trabalhando para superar, mas que lembram por que um minicérebro não é um cérebro humano em miniatura.
O que os minicérebros já ajudaram a descobrir?
Mais do que parece para algo tão pequeno. Na palestra, Muotri apresentou aplicações em vírus e em doenças genéticas raras.
O fio comum é a chamada medicina de precisão: entender o mecanismo de cada condição para buscar um tratamento dirigido a ele, e não só aos sintomas.
Por que levar minicérebros para o espaço?
O neurocientista conta que quando o filho começou a ter epilepsia de difícil controle, entre 7 e 9 anos, ele começou a procurar uma solução para conseguir prever as crises. Foi quando se deparou com estudos da Nasa, incluindo o The Nasa Twins Study, com indícios de que as células neurais envelhecem mais rápido no espaço. Isso ajuda a estudar doenças que só aparecem com o tempo.
Em parceria com a agência, Muotri fez nove missões autônomas à Estação Espacial Internacional (ISS). Os minicérebros viajam em compartimentos do tamanho de uma caixa de sapato e passam 30 dias em microgravidade.
Entre os achados que essas missões permitiram estão os chamados retrovírus endógenos, trechos de vírus antigos que ficaram incorporados ao nosso próprio DNA ao longo da evolução. Em neurônios envelhecidos, esses trechos deixam de ficar “desligados”. Ao serem reativados, disparam uma resposta imune que gera inflamação no cérebro, a neuroinflamação.
A descoberta abriu caminho para testar um remédio já conhecido para um novo uso. A lamivudina, antirretroviral de baixo custo usado no tratamento do HIV, que está em etapa de ensaio clínico em Fortaleza (CE) para tentar frear essa cascata inflamatória.
Onde entram a Amazônia e a inteligência artificial?
Na busca por novas moléculas, feita com um modelo que Muotri descreve como ético e sustentável. Em vez de alianças fechadas com a indústria farmacêutica tradicional, o laboratório trabalha com povos originários, como os Huni Kuin, e com a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) para mapear compostos da farmacopeia ancestral que atuam no sistema nervoso.
Se algum desses compostos virar medicamento, os royalties serão destinados à conservação da Amazônia e às comunidades locais. A tecnologia entra para ganhar escala: microrrobôs guiados por GPS coletam amostras na copa das árvores, e sistemas de inteligência artificial filtram as moléculas capazes de atravessar a barreira hematoencefálica, a proteção natural que controla o que passa do sangue para o cérebro. Dez moléculas pré-selecionadas serão testadas na ISS.
O que vem depois da Estação Espacial?
Novos laboratórios fora da Terra. Como a ISS deve ser desativada nos próximos anos, uma doação filantrópica de US$ 150 milhões viabilizou uma parceria com a empresa Vast para construir um módulo laboratorial próprio em órbita.
Muotri também citou um projeto com a DARPA, agência de pesquisa do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, para levar testes farmacológicos e biomédicos a uma futura base na Lua. E apresentou uma ideia de longo prazo: usar a mineração de asteroides e criar ecossistemas artificiais fechados, os “biotas”, para reduzir a pressão extrativa sobre a Terra.
“As empresas estão desenvolvendo uma forma de capturar esteróides, para fazer a mineração, já que em um se pode ter uma quantidade dez vezes maior de minerais do que já extraído na Terra em toda a humanidade”, explica. “Essa exploração gera energia que pode abastecer naves espaciais”, explica.
Por que os diagnósticos de autismo aumentaram?
Por mais de um motivo. Questionado no bloco de perguntas sobre o aumento dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), Muotri apontou que houve mudanças na forma de realizar o diagnóstico: os critérios clínicos do espectro ficaram mais amplos, e neuropediatras e famílias estão mais preparados para reconhecer os sinais.
Ao mesmo tempo, segundo ele, as alterações genéticas que causam o autismo seguem em taxas estáveis na população. Para Muotri, nem a genética nem a melhora no diagnóstico explicam sozinhas o aumento, o que aponta para a influência de fatores ambientais que podem desencadear o quadro em pessoas com predisposição. Quais são esses fatores e qual o peso de cada um ainda é tema de pesquisa.
Ciência que se faz junto
O título da palestra resume o que atravessa toda essa história: a evolução exige cooperação. Para chegar perto de um órgão que sempre esteve fora de alcance, a pesquisa de Muotri reuniu famílias, universidades, a Fiocruz, a NASA, empresas privadas e povos da floresta.
É uma ciência que não anda sozinha e que devolve parte do que aprende a quem ajudou a chegar lá. Talvez seja essa a lição mais simples que um tecido de meio centímetro tem a ensinar.