IA e pensamento crítico: como não deixar de pensar

O futurista John Nosta explica por que a IA pode nos fazer parar de pensar e como manter o senso crítico no dia a dia.

Por: Gabriele Doro
Atualizado em: 22/10/2026
4 min
Fonte: Adobe Stock

Se a palestra de John Nosta coubesse em uma palavra, seria esta: pensar. A inteligência artificial é extraordinária e sedutora, disse ele, mas carrega um risco que não aparece de cara. “Ela faz algo mais poderoso do que pensar por si mesma: ela nos faz parar de pensar.”

Fundador do Nosta Lab, Nosta apresentou essa ideia na Convenção Nacional Unimed 2026, em conversa mediada por Claudio Laudares Moreira, diretor da Unimed do Brasil. O tema era a próxima fronteira da tecnologia, mas o foco ficou no lado humano: o que acontece com o nosso raciocínio quando passamos a dividir o trabalho de pensar com uma máquina.

Pensamento crítico, aqui, é a capacidade de analisar uma informação, questionar o que ela diz e chegar a uma decisão própria. É exatamente essa capacidade que, segundo Nosta, está em jogo.

Foto: John Nosta no Painel da Convenção Nacional Unimed

A IA é mais inteligente que o ser humano?

Não é essa a comparação certa, segundo Nosta. A IA não está na mesma régua do QI humano: ela não é “mais esperta”, é diferente. Trata-se de um motor estatístico, que calcula probabilidades a partir de enormes volumes de dados.

Para mostrar o tamanho dessa diferença, ele usou um exemplo. Nós entendemos o mundo em três dimensões de espaço e vivemos numa quarta, o tempo. Já para um modelo de linguagem, o tipo de IA por trás de assistentes como os chatbots, uma palavra simples como “maçã” é representada em um espaço de 12.288 a 25 mil dimensões. É outra forma de “enter” o mundo, que não passa pela experiência.

O que é cognição paralaxe?

É a ideia de que a melhor inteligência vem de dois pontos de vista combinados. Assim como usamos dois olhos para enxergar profundidade, Nosta defende juntar a enorme capacidade de cálculo da IA com a experiência vivida, empática e contextual do ser humano.

Nenhum dos dois olhos, sozinho, dá a imagem completa. A profundidade está na combinação.

Qual a diferença entre inteligência iterativa e rendição cognitiva?

São os dois caminhos possíveis na relação com a IA. A inteligência iterativa é pensar em diálogo contínuo com a máquina: em vez de fazer uma pergunta e aceitar a resposta, a pessoa conversa, contesta e constrói o raciocínio junto.

A rendição cognitiva é o oposto: entregar o ato de pensar ao piloto automático da máquina. Com o tempo, diz Nosta, isso atrofia o senso crítico e a capacidade de decidir. É como um músculo que deixa de ser usado.

Por que tudo parece mudar tão rápido?

Porque a própria IA passou a acelerar o desenvolvimento da tecnologia. Para Nosta, o ritmo já ultrapassou o crescimento exponencial que costumávamos usar como referência. Ele chama esse momento de “IA elevada à potência da IA”: máquinas ajudando a criar máquinas melhores, numa curva que sobe quase na vertical.

O que os estudos mostram sobre IA e decisão médica?

Que a IA ajuda, mas cobra um preço quando usada sem cuidado. Nosta reuniu resultados de pesquisas na área da saúde.

O que foi observadoResultado citado na palestra
Diagnóstico finalMédicos sozinhos, médicos com IA e IA sozinha tiveram acertos parecidos, entre cerca de 62% e 66%
Raciocínio clínico estruturadoO modelo de linguagem chegou a 92%, contra 73% a 76% dos médicos
Efeito rebote em colonoscopiasCom IA, a detecção aumentou; ao voltar ao método manual, caiu para 22%, abaixo dos 28% de antes da IA
Falsa confiançaOs profissionais achavam que estavam até 30% melhores do que de fato estavam
Fragilidade dos modelosMudanças pequenas de linguagem ou na organização do prontuário derrubaram a precisão da IA de 82% para 63%

A leitura dele junta as pontas: a IA pode raciocinar bem em condições controladas, mas é sensível a “ruído” e pode deixar quem a usa menos preparado quando ela não está por perto. Por isso, a presença crítica do profissional continua indispensável.

Como usar a IA sem parar de pensar?

Fazendo quatro perguntas antes de confiar em uma resposta. Nosta propõe o que chama de pilares de interrogação da IA:

1. Necessidade: eu preciso da IA para isso ou estou usando só por comodidade?

2. Interrogação: o que estou perguntando e, principalmente, o que estou deixando de fora do pedido?

3. Calibração: posso confiar no resultado? Como confiro vieses e informações erradas?

4. Decisão: como isso muda a minha decisão real? A responsabilidade final continua sendo minha?

Existe um treino para a mente?

Existe, e ele é simples. Inspirado nas atividades de vida diária (AVDs), que a geriatria usa para avaliar a autonomia de uma pessoa, Nosta propõe as atividades diárias de pensamento:

• Ler com profundidade, incluindo textos longos e analíticos.

• Escrever com a própria voz, sem terceirizar 100% de textos e e-mails para a IA.

• Discordar e questionar a máquina, em vez de aceitar a resposta pronta.

• Sustentar a decisão, mantendo-se presente e crítico no processo.

O médico vai ficar obsoleto?

Não, segundo Nosta. O que muda é o conjunto de tarefas de cada profissional. A tecnologia tende a distribuir atividades, preparando outros profissionais da assistência para assumir parte delas e reservando ao médico os casos mais complexos e os que dependem mais da relação com o paciente.

A IA resolve bem as ineficiências do sistema, como marcação de consultas, triagem e fluxos. O papel humano está em conduzir a jornada entre um ponto e outro: o cuidado, o erro que precisa ser assumido, o acolhimento.

O último direito humano

Nosta chama a capacidade de pensar por conta própria de agência cognitiva e a define como “o último direito humano”. Para ele, o valor de uma liderança não está em ser mais rápida que o algoritmo, mas em preservar o discernimento e a empatia.

A máquina pode calcular em milhares de dimensões. Escolher o que fazer com essa resposta, e por quê, continua sendo um trabalho nosso. Vale lembrar disso na próxima vez que a resposta pronta parecer boa demais para ser questionada.

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