Solastalgia: quando a crise climática também transforma nossa relação com o lugar onde vivemos

Reading Time: 4 minutes Enchentes, secas, incêndios e outras transformações ambientais podem deixar marcas que vão além das perdas materiais. A solastalgia ajuda a entender a angústia provocada quando o lugar que chamamos de casa deixa de ser como o conhecíamos.

Por: Marcia Tojal
Atualizado em: 21/09/2026
4 min
Ilustração sobre solastalgia com uma mulher em perfil sobre um cenário dividido entre paisagem árida e cidade verde ao fundo, com nuvens e sol ao lado.
Ilustração gerada digitalmente
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Imagine olhar pela janela de casa e ainda reconhecer a rua, as construções e parte da paisagem, mas sentir que aquele já não é exatamente o mesmo lugar. A árvore que fazia sombra desapareceu depois de um incêndio. O rio que fazia parte da rotina transbordou e destruiu parte do bairro. Ou a seca mudou a vegetação, a produção agrícola e a vida de uma comunidade inteira. Há uma palavra para descrever essa angústia específica de ver o lugar que você conhece se transformar diante de seus olhos: solastalgia. 

O conceito foi apresentado pelo filósofo ambiental australiano Glenn Albrecht e seus colaboradores para descrever o sofrimento provocado por mudanças ambientais negativas enquanto a pessoa permanece ligada ao lugar afetado. Esse princípio nasceu com base em pesquisas realizadas em comunidades australianas que enfrentavam transformações ambientais provocadas, entre outros fatores, por secas prolongadas e pela mineração a céu aberto. 

De certa forma, o nome faz referência à nostalgia, sentimos falta de um lugar do qual estamos distantes. Só que na solastalgia, a lógica inverte. É o lugar que se afasta de nós, mesmo sem você sair de onde está.

Quando a paisagem também faz parte de quem somos

Nossa relação com o território não é apenas geográfica. Lugares guardam lembranças, relações sociais, atividades econômicas, tradições e referências que ajudam a construir a sensação de pertencimento.

Por isso, a degradação de uma paisagem pode significar muito mais do que uma mudança visual. Para uma família que vive da agricultura, uma seca prolongada pode comprometer simultaneamente renda, rotina e perspectivas de futuro. Para uma comunidade atingida por uma enchente, a destruição de casas, escolas, praças e comércios também pode alterar as relações construídas naquele território, ao longo dos anos.

O próprio Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) inclui a solastalgia entre as respostas emocionais associadas à degradação de paisagens locais ou valorizadas. O relatório destaca que os impactos das mudanças climáticas sobre a saúde mental podem ocorrer por diferentes caminhos: diretamente, pela experiência de um evento extremo ou de temperaturas elevadas; indiretamente, por consequências como deslocamento e perdas econômicas; e até pela observação dos efeitos da crise climática sobre outras pessoas e lugares.

O sofrimento mental ligado a desastres climáticos pode surgir antes do evento e persistir por anos 

Quando pensamos nos efeitos de uma enchente ou de um incêndio, é natural imaginar primeiramente o momento da emergência. Mas as consequências psicológicas não seguem necessariamente o mesmo calendário do evento climático.

O Guia de Bolso sobre Mudanças Climáticas para Profissionais da Saúde, do Ministério da Saúde, alerta que inundações, secas e outros fenômenos meteorológicos extremos podem provocar sofrimento ou adoecimento mental antes, durante e depois do evento. Entre os fatores envolvidos estão as perdas de pessoas próximas e de bens, os deslocamentos forçados e a elevada carga emocional e psicossocial enfrentada pelas populações atingidas. O documento também aponta que esses efeitos podem persistir por meses ou anos e atingir indivíduos, famílias e comunidades inteiras.

Às vezes, o impacto nem precisa de um desastre completo para começar. A simples percepção de que uma ameaça pode voltar já muda a relação com o território. A chegada do período de chuvas, por exemplo, pode ganhar outro significado para quem já viu a água invadir a própria casa. Em regiões afetadas repetidamente por secas ou incêndios, a incerteza sobre o que vem pela frente pode fazer parte da rotina.

Isso não significa que qualquer preocupação ambiental seja um transtorno mental. A solastalgia é um conceito usado para compreender uma experiência de sofrimento ligada à perda ou transformação do ambiente, e não um diagnóstico clínico.

A crise climática também é uma questão de saúde mental

A conexão entre clima e saúde mental vem recebendo atenção crescente de organismos de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que as mudanças climáticas intensificam fatores ambientais, sociais e econômicos que afetam a saúde mental e o bem-estar psicossocial. Por isso, recomenda que o cuidado em saúde mental seja incorporado às estratégias de resposta à crise climática.

No Brasil, o Ministério da Saúde também reconhece que tanto eventos extremos, quanto alterações ambientais graduais, podem desencadear ou agravar sofrimentos mentais e psicossociais.

E esses efeitos não chegam da mesma forma para todo mundo. Condições de moradia, renda, acesso aos serviços de saúde, idade e possibilidade de se deslocar ou reconstruir a vida influenciam a capacidade de enfrentar uma emergência. No Brasil, o Ministério da Saúde chama atenção especialmente para a maior vulnerabilidade de crianças, idosos, gestantes, pessoas com deficiência e doenças crônicas, além de comunidades de baixa renda, populações negras, indígenas, povos e comunidades tradicionais, moradores de periferias, migrantes e mulheres.

Reconstruir também significa recuperar vínculos

Reunião comunitária ao ar livre com pessoas em círculo, ouvindo uma mediadora com colete e conversando sobre um projeto social durante o dia.
Imagem gerada digitalmente

Depois de um desastre, reconstruir casas, estradas e serviços essenciais é urgente. Mas a recuperação de uma comunidade não termina quando a água abaixa, o fogo é controlado ou os escombros desaparecem. Reconhecer os efeitos psicossociais dessas experiências permite ampliar o próprio conceito de cuidado. A OMS recomenda abordagens comunitárias e a integração entre políticas climáticas e estratégias de saúde mental, inclusive para reduzir vulnerabilidades e fortalecer a capacidade de resposta das comunidades.

Preservar redes de apoio, criar espaços de escuta, garantir acesso aos serviços de saúde e permitir que a própria população participe das decisões sobre reconstrução e adaptação são formas de considerar não apenas o território físico, mas também as relações construídas nele.

A solastalgia coloca em palavras algo que pode passar despercebido: perder uma paisagem conhecida também pode ser uma forma de perda. À medida que eventos extremos e transformações ambientais passam a fazer parte da realidade de mais comunidades, cuidar da saúde diante da crise climática também significa reconhecer esses vínculos. Afinal, proteger um lugar não é apenas preservar o espaço onde vivemos. É também proteger parte das referências que nos fazem sentir em casa.

Dúvidas mais comuns

Solastalgia é um conceito desenvolvido pelo filósofo ambiental australiano Glenn Albrecht para descrever o sofrimento provocado por mudanças ambientais negativas enquanto a pessoa permanece ligada ao lugar afetado. Diferentemente da nostalgia, onde sentimos falta de um lugar distante, na solastalgia é o lugar que se afasta de nós, mesmo sem você sair de onde está. Exemplos incluem a perda de árvores após incêndios, transbordamento de rios ou mudanças na vegetação causadas por secas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que as mudanças climáticas intensificam fatores ambientais, sociais e econômicos que afetam a saúde mental e o bem-estar psicossocial. Os impactos podem ocorrer de forma direta, pela experiência de eventos extremos; indiretamente, por consequências como deslocamento e perdas econômicas; e até pela observação dos efeitos da crise climática sobre outras pessoas e lugares. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) inclui a solastalgia entre as respostas emocionais associadas à degradação de paisagens locais.

Nossa relação com o território não é apenas geográfica. Lugares guardam lembranças, relações sociais, atividades econômicas, tradições e referências que ajudam a construir a sensação de pertencimento. Para uma família que vive da agricultura, uma seca prolongada pode comprometer simultaneamente renda, rotina e perspectivas de futuro. Para uma comunidade atingida por uma enchente, a destruição de casas, escolas, praças e comércios também altera as relações construídas naquele território ao longo dos anos.

Os efeitos psicológicos não seguem necessariamente o calendário do evento climático. Segundo o Guia de Bolso sobre Mudanças Climáticas para Profissionais da Saúde, do Ministério da Saúde, inundações, secas e fenômenos meteorológicos extremos podem provocar sofrimento mental antes, durante e depois do evento. Às vezes, o impacto nem precisa de um desastre completo para começar: a simples percepção de que uma ameaça pode voltar já muda a relação com o território, como quando a chegada do período de chuvas ganha outro significado para quem já viu a água invadir sua casa.

O Ministério da Saúde destaca maior vulnerabilidade de crianças, idosos, gestantes, pessoas com deficiência e doenças crônicas, além de comunidades de baixa renda, populações negras, indígenas, povos e comunidades tradicionais, moradores de periferias, migrantes e mulheres. Condições de moradia, renda, acesso aos serviços de saúde, idade e possibilidade de se deslocar ou reconstruir a vida influenciam a capacidade de enfrentar uma emergência climática.

Os efeitos psicológicos podem persistir por meses ou anos e atingir indivíduos, famílias e comunidades inteiras. Fatores como perdas de pessoas próximas, perda de bens, deslocamentos forçados e a elevada carga emocional e psicossocial enfrentada pelas populações atingidas contribuem para a duração desses impactos. A recuperação de uma comunidade não termina quando a água abaixa, o fogo é controlado ou os escombros desaparecem.

A OMS recomenda abordagens comunitárias e a integração entre políticas climáticas e estratégias de saúde mental. Preservar redes de apoio, criar espaços de escuta, garantir acesso aos serviços de saúde e permitir que a população participe das decisões sobre reconstrução e adaptação são formas de considerar não apenas o território físico, mas também as relações construídas nele. Reconhecer os efeitos psicossociais permite ampliar o conceito de cuidado além da reconstrução material.

Não. A solastalgia é um conceito usado para compreender uma experiência de sofrimento ligada à perda ou transformação do ambiente, e não um diagnóstico clínico. Isso significa que qualquer preocupação ambiental não é necessariamente um transtorno mental, mas sim uma resposta emocional legítima às mudanças reais no ambiente onde vivemos. O conceito ajuda a nomear e validar essa experiência específica de perda e transformação do lugar.

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