“Eu estou diferente. Eu não me reconheço.” É assim que muitas mulheres chegam ao consultório da médica de família Celina Souza. Talvez você conheça essa sensação, ou esteja vivendo isso agora. O sono já não é o mesmo, a paciência acaba mais cedo e a memória falha em momentos que antes eram simples. A explicação que costuma vir primeiro é o cansaço, o estresse ou a rotina puxada. E pode ser isso também. Mas pode ser o climatério, a fase de transição que antecede a menopausa e mexe com o corpo inteiro.
Foi para falar disso sem rodeios que a Seguros Unimed criou a série Saúde da Mulher #SemFiltros. A proposta foi de ampliar a conversa para uma fase que ainda é cercada de dúvidas e silêncio: o climatério e a menopausa. Os quatro episódios partiram de perguntas enviadas pelas colaboradoras. Nesta matéria, reunimos o que disseram a médica de família Celina Souza e o ginecologista e obstetra Remegildo Milanez, diretor de Operação e Provimento da Seguros Unimed.
Qual é a diferença entre climatério e menopausa?
A menopausa é um marco, e o climatério é o caminho até ele e um pouco depois. A menopausa é a última menstruação, confirmada quando a mulher passa 12 meses seguidos sem menstruar. O climatério é o período de transição em que a produção de hormônios pelos ovários diminui aos poucos. Ele costuma começar por volta dos 40 a 45 anos e pode durar alguns anos.
“Menopausa significa pausa do meno, e meno é sangue. A diminuição da menstruação é um marco importante do climatério”, explica Remegildo Milanez.
Como saber se é menopausa ou só cansaço?
O primeiro passo é perceber o que mudou e contar isso a alguém que acompanhe você de perto. Celina Souza lembra que uma explicação não anula a outra: “A mulher pode estar entrando nessa fase e também enfrentando estresse no trabalho, com a família”. Alguns sinais, porém, chamam a atenção logo na consulta.
“Sempre que uma mulher me procura dizendo que sente um calorão no meio da madrugada ou no meio da reunião de trabalho, que acorda muito suada, que tem aquela insônia das três da manhã, a gente acende um ponto de atenção”, diz Celina.
Além do calorão (chamado de fogacho) e da insônia, podem aparecer:
- irritabilidade e oscilações de humor;
- tristeza;
- esquecimentos e a chamada névoa mental, quando a palavra não vem na hora certa;
- dificuldade de concentração e de aprender coisas novas;
- dor de cabeça e queda de cabelo;
- diminuição do desejo sexual e desconforto na relação.
“Irritabilidade é o que elas mais relatam. E elas chegam dizendo exatamente isso: eu estou diferente, eu não sou assim”, conta Celina.
É aqui que o cuidado próximo faz diferença. Quem conhece a sua história percebe mais fácil quando algo saiu do lugar. “Basta ouvir a paciente, ela entrega o diagnóstico”, afirma Remegildo. “Ela diz: eu era uma pessoa de bom humor e, depois que parei de menstruar, estou assim. Eu dormia muito bem e não durmo mais.” Isso não dispensa olhar para outras causas. Problemas de tireoide, por exemplo, também podem causar cansaço e precisam ser considerados.
Precisa de exame para confirmar?
Na maioria das vezes, não. O diagnóstico do climatério é clínico: ele nasce da conversa, do exame físico e da história da mulher. “A clínica é soberana”, resume Remegildo. “Aquela mulher com mais de 45 anos, que está com o fluxo menstrual diminuindo, com calores no rosto, insônia, dor de cabeça, irritabilidade e dificuldade de concentração, apresenta um conjunto de sintomas que não precisa de exame.”
Há exceções. Uma mulher que retirou o útero, por exemplo, não tem a menstruação como referência, e aí um exame de sangue (o FSH) pode ajudar. Fora esses casos, os especialistas alertam para o excesso de pedidos de exames hormonais, que pouco acrescentam e podem confundir. Celina dá um exemplo comum no consultório: “Muita gente vem pedindo para dosar testosterona. Mas a testosterona da mulher nessa fase é baixa, e isso é normal”.
Para Remegildo, o bom cuidado começa pelo básico: “O profissional tem que ouvir, tocar, ver e falar. Não é pegar a caneta e encher a paciente de exames”.
Anote! Antes da consulta, vale observar e anotar o que mudou: quando o sono piorou, quando a irritação começou, se a menstruação ficou irregular. “Desde quando você está assim?” é uma das perguntas mais úteis nessa conversa.
Por que tanta coisa muda ao mesmo tempo?
Porque o estrogênio age no corpo todo, não só no sistema reprodutor. Quando ele cai, o efeito aparece em vários lugares: na massa muscular, na pele, no cabelo, no sono, no humor e, principalmente, nos ossos.
“O estrogênio ajuda a levar o cálcio para dentro dos ossos. Com menos estrogênio, a massa óssea vai diminuindo”, explica Remegildo. É por isso que a osteoporose, que deixa os ossos mais frágeis, está entre as preocupações dessa fase. Também por isso o especialista defende olhar além dos sintomas: algumas mulheres atravessam a menopausa praticamente sem sentir nada, mas as mudanças internas acontecem do mesmo jeito.
E a reposição hormonal?
A terapia hormonal é uma das ferramentas para essa fase, e a indicação depende de uma avaliação individual. Ela repõe parte dos hormônios que o corpo deixou de produzir e pode aliviar sintomas como o calorão, a insônia e o desconforto na relação. Também contribui para a saúde dos ossos.
Por muito tempo, o tratamento ficou cercado de medo. “Antigamente, a reposição hormonal era sinônimo de câncer e trombose, e a mulher estava fadada a passar por essa fase sofrendo. Hoje não é mais assim”, diz Celina. Segundo ela, boa parte desse receio vem de um estudo antigo, que usou um tipo de hormônio e um perfil de pacientes diferentes dos que são indicados hoje.
Isso não significa que serve para todas. “Eu deixo claro quais são as contraindicações”, conta Celina. Entre elas estão histórico de câncer de mama ou de endométrio, infarto, AVC e algumas doenças do fígado. Também conta o momento: os especialistas falam em uma “janela de oportunidade”, que em geral vai até cerca de dez anos depois da última menstruação. A via de uso (comprimido, gel ou adesivo) e a dose também entram na conversa, sempre caso a caso.
O que o estilo de vida faz por essa fase?
Ele não substitui o tratamento, mas prepara o corpo, e quanto antes começar, melhor. Celina usa uma imagem simples: “O músculo é uma poupança. Você tem que ir guardando para, quando chegar esse período, ter de onde tirar”. Por isso ela insiste na musculação. Se o ambiente da academia não agrada, dá para treinar em casa, no seu ritmo, até com um saco de arroz como peso.
Na alimentação, a orientação dos dois especialistas é a mesma: comida de verdade, como arroz, feijão, carne, verduras, frutas descascadas na hora e peixes, e menos açúcar e industrializados. Sem radicalismo. “Não precisa arrancar o açúcar da vida. Diminuir já é um grande passo”, lembra a conversa da série.
O sono também merece atenção. “O sono tem que ser pensado duas horas antes de dormir”, diz Remegildo. “A melatonina precisa de escuro. Eu costumo dizer que tem que apagar até aquele sinalzinho do ar-condicionado.” Ele também sugere evitar café depois do meio da tarde e deixar o celular de lado à noite.
E há um cuidado que nenhum suplemento entrega: estar com outras pessoas. “Hoje você manda mensagem no aniversário de todo mundo, mas não senta para dar um abraço, não junta panela para almoçar na casa do vizinho”, observa Remegildo.
Alimentos ajudam a substituir os hormônios? Ajudam a suavizar, mas não substituem. A soja e outros alimentos com compostos parecidos com o estrogênio podem aliviar alguns sintomas. “Substituir, não. Vai ajudar, vai suavizar”, explica o ginecologista. O mesmo vale para vitaminas: elas têm indicação em situações específicas, e o excesso, sem acompanhamento, também faz mal.
Como fica a saúde emocional?
O climatério pode mexer com o humor, com a memória e com a autoestima. Junto com os sintomas, muitas vezes vem a culpa. “Várias pacientes me dizem que se sentem muito culpadas: estou irritada com os meus filhos, estou gritando com os meus filhos”, conta Celina. “Além de lidar com todas as mudanças, ela ainda lida com a culpa de não conseguir ser a mesma pessoa de antes.”
Por isso, quem está por perto também pode ajudar. Se você percebe que alguém próximo mudou, o caminho é a empatia: falar com cuidado sobre o que você notou, oferecer apoio e criticar a situação, nunca a pessoa. “Você não é isso. Não é culpa sua, é algo que está acontecendo no seu organismo”, diz Celina, sobre como acolher. Acompanhamento psicológico também é parte do cuidado, para ajudar a mulher a se perceber, entender o que está vivendo e encontrar estratégias para o dia a dia.
E há um tema que costuma ficar em silêncio. “A sexualidade não acaba com a menopausa”, afirma Remegildo. O desconforto e a diminuição do desejo têm tratamento, e falar sobre isso na consulta é tão legítimo quanto falar do sono.
O que isso não significa
- Não é uma regra igual para todas. Cada mulher atravessa essa fase de um jeito: algumas sentem muito, outras quase nada. “Não existe receita de bolo”, como se disse na série.
- Nem todo sintoma é da menopausa. Por isso a escuta e o olhar do médico importam: outras causas precisam ser consideradas.
- Não há fórmula milagrosa. Implantes, chás e suplementos vendidos como solução rápida podem trazer riscos. Qualquer tratamento deve ser decidido com um profissional de saúde.
- Esta matéria não substitui uma consulta. As informações aqui são gerais e não servem como recomendação individual de tratamento.
Uma virada, não um fim
Aquele “eu não me reconheço” não precisa ser vivido em silêncio, nem com a sensação de que é só aguentar. O cuidado começa quando alguém para, escuta e ajuda a juntar as peças.
“Volte para o jogo. Você tem muito a contribuir”, diz Remegildo. A menopausa marca o fim de um ciclo, não o fim da vida. Com informação e acompanhamento, a pergunta deixa de ser “o que está acontecendo comigo?” e passa a ser “o que faz sentido para mim agora?”.
Dúvidas mais comuns
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A menopausa é um marco específico: a última menstruação, confirmada quando a mulher passa 12 meses seguidos sem menstruar. O climatério, por sua vez, é o período de transição que antecede a menopausa e se estende um pouco depois dela. Durante o climatério, que costuma começar por volta dos 40 a 45 anos e pode durar alguns anos, a produção de hormônios pelos ovários diminui gradualmente. Portanto, o climatério é o caminho até a menopausa, enquanto a menopausa é o ponto de chegada.
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Os sintomas mais comuns incluem ondas de calor (fogachos), especialmente à noite ou durante o dia, insônia e despertares frequentes, irritabilidade e oscilações de humor, tristeza, esquecimentos e névoa mental (dificuldade em encontrar palavras), dificuldade de concentração, dor de cabeça, queda de cabelo, diminuição do desejo sexual e desconforto nas relações. Irritabilidade é o sintoma mais relatado pelas mulheres, que frequentemente descrevem a sensação de não se reconhecerem. Esses sintomas ocorrem porque o estrogênio age em todo o corpo, não apenas no sistema reprodutor.
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O primeiro passo é observar e anotar o que mudou, anotando quando o sono piorou, quando a irritação começou e se a menstruação ficou irregular. Sinais específicos do climatério incluem calorões noturnos ou durante o dia, acordar muito suado, insônia das três da manhã, e mudanças de humor que a mulher reconhece como fora do seu padrão. É importante lembrar que uma explicação não anula a outra: a mulher pode estar entrando nessa fase e também enfrentando estresse no trabalho ou familiar. A escuta atenta de um profissional de saúde, que conhece a história da paciente, é fundamental para identificar corretamente a causa dos sintomas.
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Na maioria das vezes, não. O diagnóstico do climatério é clínico, nascendo da conversa, do exame físico e da história da mulher. Uma mulher com mais de 45 anos, com fluxo menstrual diminuindo, calores no rosto, insônia, dor de cabeça, irritabilidade e dificuldade de concentração apresenta um conjunto de sintomas que não precisa de exame para confirmação. Há exceções, como mulheres que removeram o útero, onde um exame de sangue (FSH) pode ajudar. Os especialistas alertam para o excesso de pedidos de exames hormonais, que pouco acrescentam e podem confundir o diagnóstico.
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Porque o estrogênio age em todo o corpo, não apenas no sistema reprodutor. Quando os níveis de estrogênio caem, os efeitos aparecem em vários lugares: na massa muscular, na pele, no cabelo, no sono, no humor e principalmente nos ossos. O estrogênio ajuda a levar o cálcio para dentro dos ossos, então com menos estrogênio, a massa óssea vai diminuindo, aumentando o risco de osteoporose. Algumas mulheres atravessam a menopausa praticamente sem sentir nada, mas as mudanças internas acontecem do mesmo jeito, por isso é importante olhar além dos sintomas visíveis.
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A terapia hormonal é uma das ferramentas disponíveis para essa fase, e a indicação depende de uma avaliação individual. Ela repõe parte dos hormônios que o corpo deixou de produzir e pode aliviar sintomas como calorões, insônia e desconforto nas relações, além de contribuir para a saúde dos ossos. Por muito tempo, o tratamento ficou cercado de medo devido a um estudo antigo que usava um tipo de hormônio e um perfil de pacientes diferentes dos indicados hoje. Existem contraindicações importantes, como histórico de câncer de mama ou endométrio, infarto, AVC e algumas doenças do fígado. Os especialistas também falam em uma 'janela de oportunidade' que geralmente vai até cerca de dez anos depois da última menstruação, e a via de uso e dose devem ser decididas caso a caso.
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O estilo de vida não substitui o tratamento, mas prepara o corpo, e quanto antes começar, melhor. A musculação é especialmente importante, pois o músculo funciona como uma 'poupança' que você acumula para ter de onde tirar durante esse período. Na alimentação, a orientação é consumir comida de verdade como arroz, feijão, carne, verduras, frutas descascadas na hora e peixes, reduzindo açúcar e industrializados, sem radicalismo. O sono também merece atenção: deve ser pensado duas horas antes de dormir, em ambiente escuro, evitando café após o meio da tarde e deixando o celular de lado. Além disso, estar com outras pessoas e manter conexões sociais é um cuidado que nenhum suplemento entrega.
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O climatério pode mexer com o humor, memória e autoestima, e muitas vezes vem acompanhado de culpa. Mulheres frequentemente relatam sentir-se culpadas por estarem irritadas com filhos ou familiares, e lidam não apenas com as mudanças físicas, mas também com a culpa de não conseguir ser a mesma pessoa de antes. Acompanhamento psicológico é parte importante do cuidado, ajudando a mulher a se perceber, entender o que está vivendo e encontrar estratégias para o dia a dia. Quem está por perto também pode ajudar através da empatia, falando com cuidado sobre mudanças observadas e oferecendo apoio, sempre criticando a situação e nunca a pessoa.